sábado, 30 de agosto de 2008

Entrevista com Renata Boldrini


Sua chance de trabalhar na televisão foi se candidatando à uma vaga que procurava um homem. Neta do dono das quatro salas de cinema da cidade de Santo Ângelo no Rio Grande do Sul, Renata Boldrini é hoje uma das jornalistas que mais entende de cinema no Brasil. Fã de Woody Allen, Quentin Tarantino e Martin Scorcese, a jornalista que apresenta o Cine WTN, fala um pouco sobre sua carreira.

O que fez você gostar de cinema?
Comecei a trabalhar nessa área por acaso. Vi um anúncio que procurava apresentadores para a Globosat e mandei uma fita minha, mas eles estavam à procura de um homem para o cargo, mas como eles não encontraram, fiz o teste e comecei a trabalhar com cinema. Ainda na faculdade gostava desse ramo e sempre buscava fazer aulas eletivas que falassem de cinema.

O primeiro festival que você cobriu foi Gramado, até hoje mudou muita coisa entre os concorrentes ao prêmio?
Mudou bastante, tem anos que o festival está mais aquecido, com produções mais interessantes, com grandes diretores ou estreantes, depende do que está se fazendo no cinema naquele ano. Esse ano foi muito bom, com grandes produções, filmes que vão ganhar destaque, esse ano foi muito produtivo.

Você trabalharia diretamente em um filme, atuando, dirigindo ou até mesmo dublando?
Se fosse fazer algo direto em cinema faria um documentário. Já me chamaram para ser atriz, mas acho que seria muito canastrona, essa não é a minha praia. A única coisa seria um documentário, mas sem nenhuma pretensão, só para criar uma história mesmo.

Há diferença em trabalhar na TV “convencional” e na Web TV?
O mecanismo é basicamente o mesmo, nós gravamos em estúdio a logística é a mesma para os dois, a pauta e a edição. A maior diferença é o alcance, a internet é vista por muitos jovens e temos que ter uma linguagem mais rápida, dinâmica. Mas produções para a internet são muito bem feitas e bem cuidadas assim como as para TV.

Em sua opinião o que é um bom filme?
É aquele que te prende. Mas o que é bom para mim, pode não ser para outra pessoa, depende do que a pessoa vive, o que toca mais cada um. Tem que tentar mostrar uma boa história, ter um bom diretor, boa fotografia. Um movimento de câmera tem que ter um propósito, se você começa a ver a história e fica reparando em detalhes técnicos é porque o filme não é bom. Vai de cada um.

Recentemente foi lançado “Encarnação do demônio” do Zé do Caixão. Se investissem em terror no Brasil, daria certo ou não se adaptaria?
O público gosta, os que lançam desse gênero sempre fazem sucesso, principalmente com os jovens. Os que viram adoraram o filme do Zé do Caixão faz isso há muito tempo. Não é muito comum aqui no Brasil, não é muito o estilo de quem faz cinema por aqui.

Ainda hoje há gente que não assiste cinema nacional. O que faria o público voltar a assistir os filmes brasileiros?
O cinema brasileiro mudou muito, há um interesse. O que acontece é que como o preço ainda é caro, quem só pode pagar uma sessão no mês vai optar por ver o filme que faz mais sucesso e que todos comentam. Com um cinema mais barato teríamos salas mais cheias e os jovens se interessariam mais.

Como os estrangeiros recebem os filmes e os atores brasileiros?
Eles adoram. O referencial mudou, não é mais caipirinha, Pelé, Ronaldo. Agora eles falam de “City Of God”, falam de Walter Salles. O cinema brasileiro é muito bem visto, eles conhecem e gostam da nossa cinematografia. Acho que nós fazemos bonito lá fora.

Existe algum país que faça bons filmes, mas que não são muito conhecidos?
Aqui no Brasil não damos muito destaque para filmes que não sejam americanos e dá a impressão de que os outros países não fazem bons filmes, os Iranianos são bons, os Indianos fazem filmes em grande quantidade o que acontece é que não recebemos o cinema deles.

Qual a sua opinião sobre as séries de TV que se tornam filmes?
Não acompanho muito, mas o cinema se nutre de todas as fontes, literatura, arte, vídeo games, teatro e agora nas séries. Se tiver uma oportunidade de fazer uma boa história o cinema leva para as telas. Acho bacana, se rende uma boa história vale.

O que podemos esperar de novidades entre atores ou filmes?

Tem “Ensaio sobre a cegueira” do Fernando Meirelles. Em gramado tivemos “Juventude” sobre a velhice com juventude, é muito bom. E “A festa da menina morta” que traz Matheus Nachtergale estreando como diretor e com muita segurança. Ele ganhou prêmios em Gramado e começou fazendo cinema de verdade, o trabalho dele foi ótimo. É ótimo ver novos talentos dispontando e mostrando que sabem fazer cinema.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Em busca do ângulo perfeito

Telejornais são apresentados, geralmente, por jornalistas de grande importância na emissora em que trabalham. No entanto, muita gente se prende à figura dos profissionais que aparecem na TV, e se esquece que a transmissão só acontece porque existe um profissional que pega pesado. Pesado de verdade, afinal, a câmera que eles utilizam tem cerca de 4 kg. Ainda assim, nem sempre esses profissionais ganham o crédito que merecem.
Os cinegrafistas têm a responsabilidade de criar uma linguagem com as imagens, e é graças a eles que a TV é como é. Júlio César é um novato no ramo, mas já conhece bem as dificuldades da profissão. Há apenas quatro meses trabalhando em uma emissora no Rio de Janeiro, iniciou seu trabalho como auxiliar de câmera e iluminação, e diz que já passou por alguns apuros que marcaram o início de carreira. “Estava cobrindo uma operação policial na Vila Cruzeiro quando começou um tiroteio. Joguei meu corpo no chão e vi um caveirão passar bem perto de mim. Tive que ter cuidado para não danificar a câmera”, lembra.
Outra situação que faz o cinegrafista ter muito cuidado e atenção é quando aparecem os chamados “papagaios de pirata”. “Eles querem aparecer de qualquer maneira, não importa o lugar nem o que esteja acontecendo. Já vi um deles em velórios, em áreas em que a imprensa não tem acesso. Até caixão eles carregam”, conta Júlio César.
Mais experiente na área, Alberto Ramiro começou em outra emissora onde ficou por 12 anos. Trabalhando com TV há 20, ele afirma que integração com a equipe é fundamental. “Um bom trabalho pede respeito entre repórter e cinegrafista. Não adianta cada um ir para um lado, assim a matéria não sai como deve sair”, afirma.Ele diz que durante o trabalho de editor, aprendeu a ter uma atenção especial nas imagens que os outros cinegrafistas traziam, e quando pegou a câmera, ficou mais fácil para fazer as angulações corretas. ”Eu já sabia o que deveria levar para a edição, como teria que ficar. Imagens tremidas, sem foco ou com muita luz, eu não fazia”, diz Alberto.
Uma das cenas que mais marcou o trabalho do cinegrafista foi na época do julgamento de Paula Tomaz, envolvida no assassinato da atriz Daniela Perez, em 1993. Enquanto editava uma matéria sobre o crime, viu que a mãe de Daniela entrava no tribunal olhando fixamente para a acusada. ”Não tinha como aquela imagem ficar de fora da matéria, era muito forte. Editamos novamente com um texto que caberia para cobrir a cena, e ela foi ao ar para todo o país”. Atualmente,
Alberto trabalha como cinegrafista na área de TV de uma universidade carioca, e diz que os iniciantes no curso chegam querendo ficar famosos. “Quando vamos editar uma matéria com os alunos, eles ficam mais preocupados com a aparência do que com o conteúdo. Às vezes, falam o texto errado, mas o que chama a atenção deles é o cabelo que não ficou bom, ou a roupa nova que tinha que mostrar. Não é assim que funciona”, critica.