quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Em busca do ângulo perfeito

Telejornais são apresentados, geralmente, por jornalistas de grande importância na emissora em que trabalham. No entanto, muita gente se prende à figura dos profissionais que aparecem na TV, e se esquece que a transmissão só acontece porque existe um profissional que pega pesado. Pesado de verdade, afinal, a câmera que eles utilizam tem cerca de 4 kg. Ainda assim, nem sempre esses profissionais ganham o crédito que merecem.
Os cinegrafistas têm a responsabilidade de criar uma linguagem com as imagens, e é graças a eles que a TV é como é. Júlio César é um novato no ramo, mas já conhece bem as dificuldades da profissão. Há apenas quatro meses trabalhando em uma emissora no Rio de Janeiro, iniciou seu trabalho como auxiliar de câmera e iluminação, e diz que já passou por alguns apuros que marcaram o início de carreira. “Estava cobrindo uma operação policial na Vila Cruzeiro quando começou um tiroteio. Joguei meu corpo no chão e vi um caveirão passar bem perto de mim. Tive que ter cuidado para não danificar a câmera”, lembra.
Outra situação que faz o cinegrafista ter muito cuidado e atenção é quando aparecem os chamados “papagaios de pirata”. “Eles querem aparecer de qualquer maneira, não importa o lugar nem o que esteja acontecendo. Já vi um deles em velórios, em áreas em que a imprensa não tem acesso. Até caixão eles carregam”, conta Júlio César.
Mais experiente na área, Alberto Ramiro começou em outra emissora onde ficou por 12 anos. Trabalhando com TV há 20, ele afirma que integração com a equipe é fundamental. “Um bom trabalho pede respeito entre repórter e cinegrafista. Não adianta cada um ir para um lado, assim a matéria não sai como deve sair”, afirma.Ele diz que durante o trabalho de editor, aprendeu a ter uma atenção especial nas imagens que os outros cinegrafistas traziam, e quando pegou a câmera, ficou mais fácil para fazer as angulações corretas. ”Eu já sabia o que deveria levar para a edição, como teria que ficar. Imagens tremidas, sem foco ou com muita luz, eu não fazia”, diz Alberto.
Uma das cenas que mais marcou o trabalho do cinegrafista foi na época do julgamento de Paula Tomaz, envolvida no assassinato da atriz Daniela Perez, em 1993. Enquanto editava uma matéria sobre o crime, viu que a mãe de Daniela entrava no tribunal olhando fixamente para a acusada. ”Não tinha como aquela imagem ficar de fora da matéria, era muito forte. Editamos novamente com um texto que caberia para cobrir a cena, e ela foi ao ar para todo o país”. Atualmente,
Alberto trabalha como cinegrafista na área de TV de uma universidade carioca, e diz que os iniciantes no curso chegam querendo ficar famosos. “Quando vamos editar uma matéria com os alunos, eles ficam mais preocupados com a aparência do que com o conteúdo. Às vezes, falam o texto errado, mas o que chama a atenção deles é o cabelo que não ficou bom, ou a roupa nova que tinha que mostrar. Não é assim que funciona”, critica.

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