quarta-feira, 30 de abril de 2008

O lixo de uns é o luxo de muitos

João Gomes da Silva, 56 anos, é pai de sete filhos, mecânico e está desempregado. Mora dentro um barraco de madeira em um cômodo na Favela do Lixão, em Caxias. Sua mulher, Isaura, não pode trabalhar porque toma conta das crianças. Ele faz biscates, mas não consegue mais do que R$50,00 por mês. O dinheiro que ganha não dá para dar de comer à família. Por isso ele tem de catar restos de alimentos no lixo do Aterro Sanitário do Município.

- Tem dias que não tem nada para comer, a não ser uma sopa de água e ossos de boi que a gente consegue no lixo dos açougues. A fome dói na carne, mas ver nossos filhos com fome dói na alma – conta.

João faz parte de uma realidade que não orgulha nem um pouco a população carioca. Segundo o resultado de um novo levantamento realizado pelo Comitê Rio pela Vida e contra a Fome o número de pessoas abaixo da linha da pobreza no Rio aumentou na última década e chega hoje a um milhão de famílias no Estado do Rio de Janeiro.

Os esforços das autoridades não tem sido suficientes para chegar a estas famílias mais necessitadas. O último levantamento realizado pelo comitê há dez anos, apurou que havia 630 mil famílias famintas no Rio. Para determinar quem está abaixo da linha da misér ia é usado o seguinte critério: estão vivendo na pobreza famílias com uma renda per capita de até R$ 65,00 por mês.
Maurício Andrade, presidente do Comitê Rio Pela Vida, diz que para tentar solucionar o problema, uma das iniciativas imediatas é a criação do mutirão ”Vamos dar as mãos”, uma parceria do Estado com a sociedade civil. Para levar este programa adiante, foi firmado um protocolo de intenções, a partir do qual foi criado um comitê encarregado de tomar as medidas principais. Entre elas, está a criação de um cadastro único de famílias cuja renda per capita não ultrapassar R$ 65,00 por mês.
- O Governo precisa ter a coragem de dar nome às pessoas famintas. Ao se ter um cadastro único, fica mais fácil articular as diversas políticas assistenciais. Daqui a 90 dias, estarão prontos os CPFs da Fome, em cima de dados fornecidos pelas próprias pessoas em quiosques que serão montados em diversos pontos da cidade – afirma o responsável pela organização.
A segunda medida é a criação de um Disque-Fome, por meio do qual hotéis, restaurantes e supermercados serão mobilizados para entrar em contato, pro meio de uma central telefônica, informando sobre as sobras que poderão ser aproveitadas naquele dia.
Entre as 50 empresas que já se apresentaram para formar o exército de ajuda está a Ceasa, que distribui, por meio do programa Desperdício Zero, cerca de 2.100 sacolas de produtos por semana. São legumes e verduras que são desperdiçadas, mas que servem a 15 comunidades. Haverá também uma lista de abrigos e instituições cadastrados para receberem as sobras doadas pelas empresas que forem ajudar.
Uma vez identificada a demanda, o mutirão vai passar também a procurar a oferta. Empresários ou qualquer outro cidadão que quiser ajudar vai saber o que fazer. Quem tiver disponibilidade de gastar de R$ 10,00 a R$ 12,00 por mês também pode assumir este compromisso e ‘adotar’ uma família.
Quem sobrevive das doações feitas pela Ceasa, é mais uma das milhares de mães que vêem seus filhos e netos passando fome. Com os R$ 65,00 que a filha mais velha ganha como faxineira, Marciana Vieira dos Santos, 59 anos, vive ainda com um neto na Favela da Maré.- Se não fossem as sobras que recebo da Ceasa toda semana, não conseguiria alimentar minha família. Antes de receber as sacolas, a gente tinha que catar restos de comida no chão, depois das feiras. Agora, o que sobra lá, que antes ia pro lixo, vem pra panela da gente matar nossa fome – conta a dona de casa emocionada.Em um ano, mais de 100 quilos de comida no lixo
Um país onde dizem que “se plantando, tudo dá”, o Brasil ainda tem muito para aprender a respeito de desperdício de comida. A perda anual de frutas, hortaliças, grãos e outros alimentos seria suficiente para fornecer cestas básicas no valor médio de R$ 120 a 7 milhões de famílias durante um ano.
Atualmente, apenas uma família de classe média brasileira desperdiça diariamente 500 gramas de alimentos, o que gera uma perda de 180 quilos anuais, cerca de 35% das hortaliças produzidas no Brasil apodrecem nas latas de lixo. O desperdício no Brasil consome cerca de 40% da produção agrícola nacional. Entre a produção no campo e a mesa do consumidor, as perdas de alimentos chegam a variar entre 20% e 60%. Cerca de 60% dos alimentos não processados industrialmente acabam sendo desperdiçados. Mais da metade do lixo produzido no país é composta por restos de alimentos.

Em média, cada casa brasileira joga no lixo cerca de 20% dos alimentos que compram semanalmente, ou seja, uma estimativa de R$ 2,7 bilhões anuais. Se em uma única refeição, 100 gramas de alimento ficarem no prato, em um ano, o desperdício pode chegar a 36,5 quilos.

Nenhum comentário: